2 de julho de 2010

(500) Days of Summer

Dirigido por Marc Webb e escrito por Mark Waters, este deve ser o filme delicodoce mais falado nos últimos tempos. Compreende- se depois de visto, pois antes parecia mais uma comédia romântica, baseada na mesma história de "boy meets girl".


Não é só o rapaz que conhece a rapariga, trata- se de uma mostra do novo tipo de relacionamento que se encara nos dias que correm, tudo isto através de Tom- Joseph Gordon Levitt- e de Summer- Zooey Deschanel. Esta nova ideologia de relação casual é defendida por Zooey, fugindo ao lugar comum de que este é sempre um papel masculino.
Tom sabe que Summer é a mulher da sua vida, enquanto ela tem as suas dúvidas... Acabando a relação. Todo este enredo é- nos mostrado através de flash-backs, muito bem conseguidos na minha opinião, através de separadores. (Nem sempre é fácil para o espectador ligar os acontecimentos no caso desta contrucção da narrativa, não sendo este o caso.) Viajamos portanto nas memórias do jovem, que luta por compreender o porquê do abandono.


Os diálogos não são corriqueiros, mas também não nos maçam, revelam sim uma grande espontaneidade, como se estivéssemos a rever- nos nas palavras e nos sentimentos. Mas este elemento de proximidade com o publico é clara e evidente, pois mesmo nas cenas mais íntimas, sentimo- nos parte da vida dos protagonistas, nem que seja como voyers da sua história.

A trama passa- se na cidade de Nova Iorque que nos é revelada com um encanto diferente, isto devido à escolha das zonas filmadas, que não são as tipicamente cosmopolitas e nova-iorquinas que aparecem maioritariamente. As paisagens, os interiores e os edifícios ganham aqui uma espécie de "alma" quase europeia e até mesmo um pouco revivalista.


Tal não sucede unicamente nos décores, mas também em termos de caracterização, sendo evidente a estética dos anos 50 e 60 no look de Summer- que chega a ser mesmo comentado num dos diálogos. Também Tom se veste como um dandi moderno e despreocupado. Assim revelam- se um casal bastante compatível visualmente, o que acaba por ser dicotómico em relação à sua relação psicológica.



As pequenas participações de Matthew Gray Gubler, o Reid da série Mentes Criminosas e de Geoffrey Arend como os amigos Paul e McKenzie, respectivamente, servem para conhecermos um novo tipo de companheirismo neste tipo de filmes.

Destaco Cloeh Moretz, que interpreta o papel de irmã mais nova de Tom e também de sua sábia conselheira. Está aqui uma jovem actriz que devemos seguir as pisadas!


Atenção também à banda sonora, embora seja levezinha, é muito agradável e revela- nos alguns temas interessantes.

1 de julho de 2010

Perfume: The Story of a Murderer

Este filme de Tom Tykwer, baseado no romance homónimo, é dono de uma crueza que ao mesmo tempo nos gela e instiga a saber e ver mais.


As cenas iniciais, em que são mostrados os primeiros anos, desde o nascimento, de Jean- Baptiste Grenouille, mostraram- se mais chocantes do que a continuação da sua vida. O que poderia ser curioso, visto o filme centrar- se na "História de um Assassino". A questão é mesmo essa, os primeiros instantes de vida de Grenouille servem de pura geratriz para os seus comportamentos posteriores, logo são importantíssimos e elementos chave para a compreensão do personagem principal, que nos transmite uma compaixão maior que a repulsa que poderíamos conjecturar antes de assistirmos ao filme.
Grenouille é majestosamente interpretado por Ben Whishaw, um actor que eu nunca antes tinha visto e do qual me tornei fã. A sua beleza nada comum nem óbvia aliam- se a toda a linguagem corporal patente ao longo da película. É certo que esse era o papel que teria de desempenhar, um homem que sente tudo através de um único sentido- o olfacto, expressando- se através do olhar, da postura, mas não consigo pensar em nenhum actor para hipoteticamente ter assumido esta personalidade melhor que Ben.



A participação de veteranos- Dustin Hoffman e Alan Rickman- veio abrilhantar um filme que não necessitava desse brilho, visto ter alicerces num óptimo guião, que nos surpreende não só no final, mas ao longo dos minutos. Mérito do guionista? Ou do autor da obra literária, Patrick Suskind? Terei de ler o livro para saber o que foi adaptado, e certamente fá- lo- ei. Mas em parte muito do mérito das cenas finais deve- se aos figurantes, e mais não revelo.



Não vi nenhuma das actrizes a destacar- se, com excepção de Birgit Minichmayr que desempenhou o papel de mãe de Jean- Baptiste. Embora a sua participação fosse muitíssimo curta, não posso deixar de indicá- la.


Às actrizes que desempenham papéis de virgens ruivas donas de belezas únicas faltou- lhes uma altivez, que bem sei não fazer parte das personalidades retratadas, mas que conseguia ser um elemento trabalhado para que não parecessem tão esmorecidas. Talvez diga isto pois nos parâmetros sociais as ruivas costumam ser vistas de um modo muito mais lânguido do que em Perfume...



Gostei da caracterização e do guarda- roupa, que não sendo exageradamente remetentes ao século XVIII e à sua riqueza estética, exemplificaram na perfeição a vida das classes baixas em contraste com os nobres. Será estranho ter adorado o casaco completamente desfeito e sujo que o aprendiz de perfumista Grenouille usou sempre? Acho que uma imagem de um indivíduo deste nível social era necessária em filmes de época, que geralmente focam mais as classes abastadas.

As paisagens de Grasse encheram- me o peito daquele ar puro e do odor das flores e da terra molhada. Na verdade, todo o filme é concebido para que o espectador percorra a sua memória olfactiva em busca dos cheiros que as imagens traduzem. São os detalhes muito bem capturados que nos comunicam os odores que Grenouille sente. Não só no caso de Grasse, mas também, por exemplo, da pestilenta Paris, mais especificamente o mercado e os cortumes.